Na terceira carta de Rilke para Franz Kappus em 23 de abril de 1903, o autor fala da solidão das obras de arte e da paciência que o artista precisa para vê-la amadurecer.
(...)"Obras de arte são de uma solidão infinta, e nada pode passar tão longe de alcançá-las quanto a crítica. Apenas o amor pode compreendê-las, conservá-las e ser justo em relação à elas. Dê razão sempre a si mesmo e a seu sentimento, diante de qualquer discussão, debate e introdução; se o senhor estiver errado, o crescimento natural de sua vida íntima o levará lentamente, com o tempo, a outros conhecimentos. Permita suas avaliações seguir o desenvolvimento próprio, tranquilo e sem perturbação, algo que, como todo avanço, precisa vir de dentro e não pode ser forçado nem apressado por nada. Tudo está em deixar amadurecer e então dar à luz. Deixar cada impressão, cada semente de um sentimento germinar por completo dentro de si, na escuridão do indizível e do inconsciente, em um ponto inalcançável para o próprio entendimento, e esperar com profunda humildade e paciência a hora do nascimento de uma nova clareza: só isso se chama viver artisticamente, tanto na compreensão quanto na criação.
Não há nenhuma medida de tempo nesse caso, um ano nada vale, e mesmo dez anos não são nada. Ser artista significa: não calcular nem contar; amadurecer como uma árvore que não apressa a sua seiva e permanece confiante durante as tempestades da primavera, sem o temos de que o verão possa vir depois. Ela vem apesar de tudo. Mas só chega para os pacientes, para os que estão ali como se a eternidade se encontrasse diante deles, com toda a amplidão e a serenidade, sem preocupação alguma. Aprendo isto diariamente, aprendo em meio a dores às quais sou grato: a paciência é tudo!" (...)
30 março 2010
26 março 2010
RILKE, CARTA 2
A segunda carta de Rilke para o jovem Franz Kappus data de 05 de abril de 1903 e é muito breve, por conta do estado de saúde do remetente. Fala sobre a ironia.
(...)"Hoje eu dizer queria apenas duas coisas ao senhor. Primeiro, quanto à ironia.
Não se deixe dominar por ela, principalmente em momentos sem criatividade. Nos momentos criativos, procure fazer uso dela como de mais um meio para abarcar a vida. Usada com pureza, ela também é pura, e não é preciso envergonhar-se dela. Caso a intimidade seja excessiva, caso o senhor tema essa crescente intimidade com a ironia, volte-se para assuntos grandes e sérios, diante dos quais ela se torna pequena e desamparada. Procure o fundo das coisas: ali a ironia nunca chega. Assim, se o senhor seguir seu caminho à beira do que é grandioso, pergunte-se também se esse modo de compreender o mundo corresponde a uma necessidade de seu ser. Pois, sob a influência de coisas sérias, ou a ironia o abandonará (se ela for algo ocasional), ou então ela ganhará força (se lhe pertencer como algo inato) e se converterá em uma ferramenta séria, assumindo seu lugar no encadeamento dos recursos com os quais o senhor terá de construir sua arte." (...)
(...)"Hoje eu dizer queria apenas duas coisas ao senhor. Primeiro, quanto à ironia.
Não se deixe dominar por ela, principalmente em momentos sem criatividade. Nos momentos criativos, procure fazer uso dela como de mais um meio para abarcar a vida. Usada com pureza, ela também é pura, e não é preciso envergonhar-se dela. Caso a intimidade seja excessiva, caso o senhor tema essa crescente intimidade com a ironia, volte-se para assuntos grandes e sérios, diante dos quais ela se torna pequena e desamparada. Procure o fundo das coisas: ali a ironia nunca chega. Assim, se o senhor seguir seu caminho à beira do que é grandioso, pergunte-se também se esse modo de compreender o mundo corresponde a uma necessidade de seu ser. Pois, sob a influência de coisas sérias, ou a ironia o abandonará (se ela for algo ocasional), ou então ela ganhará força (se lhe pertencer como algo inato) e se converterá em uma ferramenta séria, assumindo seu lugar no encadeamento dos recursos com os quais o senhor terá de construir sua arte." (...)
19 março 2010
RILKE, CARTAS A UM JOVEM POETA
Rainer Maria Rilke (1875-1926) foi um grande poeta nascido em Praga, sendo um dos autores alemães mais conhecidos no Brasil e tendo influenciado muitas gerações de poetas. Teve excelentes traduções de seus textos feitos por alguns dos maiores nomes da poesia brasileira, entre eles, Manuel Bandeira (Torso Arcaico de Apolo) e Cecília Meireles (A Canção de Amor e de Morte do Porta-Estandarte Cristovão Rilke).
No livro, Cartas a um jovem poeta, destinadas originalmente à Franz Xaver Kappus, Rilke mostra toda sua genialidade dando conselhos ao jovem que aspirava ser poeta.
São dez cartas abordando temas como a crítica, necessidade de criar, auto-conhecimento, solidão, amor, paciência, pobreza, sexo, amadurecimento, arte, etc.
Hoje falarei da primeira carta, escrita em Paris no dia 17 de fevereiro de 1903, onde Rilke fala sobre a crítica e o auto-conhecimento.
"(...)Não posso entrar em considerações sobre a forma dos seus versos; pois me afasto de qualquer intenção crítica. Não há nada que toque menos uma obra de arte do que as palavras de crítica: elas não passam de mal entendidos mais ou menos afortunados. As coisas em geral não são tão fáceis de apreender e dizer como normalmente nos querem levar a acreditar; a maioria dos acontecimentos é indizível, realiza-se em um espaço que nunca uma palavra penetrou, e mais indizíveis do que todos os acontecimentos são as obras de arte, existências misteriosas , cuja vida perdura ao lado da nossa, que passa.
(...)
O senhor me pergunta se os seus versos são bons. Pergunta isso a mim. Já perguntou a mesma coisa a outras pessoas antes. Envia os seus versos para revistas. Faz comparações entre eles e outros poemas e se inquieta quando um ou outro redator recusa suas tentativas de publicação. Agora (como me deu licença de aconselhá-lo) lhe peço para desistir de tudo isso. O senhor olha para fora, e é isso sobretudo que não deveria fazer agora. Ninguém pode aconselhá-lo e ajudá-lo, ninguém. Há apenas uma meio. Volte-se para si mesmo.
(...)
E se, desse ato de se voltar para dentro de si, desse aprofundamento em seu próprio mundo, resultarem versos, o senhor não pensará em perguntar a alguém se são bons versos. Também não tentará despertar o interesse de revistas por tais trabalhos, pois verá neles seu querido patrimônio natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando surge de uma necessidade. É no modo como ela se origina que se encontra o seu valor, não há nenhum outro critério."
No livro, Cartas a um jovem poeta, destinadas originalmente à Franz Xaver Kappus, Rilke mostra toda sua genialidade dando conselhos ao jovem que aspirava ser poeta.
São dez cartas abordando temas como a crítica, necessidade de criar, auto-conhecimento, solidão, amor, paciência, pobreza, sexo, amadurecimento, arte, etc.
Hoje falarei da primeira carta, escrita em Paris no dia 17 de fevereiro de 1903, onde Rilke fala sobre a crítica e o auto-conhecimento.
"(...)Não posso entrar em considerações sobre a forma dos seus versos; pois me afasto de qualquer intenção crítica. Não há nada que toque menos uma obra de arte do que as palavras de crítica: elas não passam de mal entendidos mais ou menos afortunados. As coisas em geral não são tão fáceis de apreender e dizer como normalmente nos querem levar a acreditar; a maioria dos acontecimentos é indizível, realiza-se em um espaço que nunca uma palavra penetrou, e mais indizíveis do que todos os acontecimentos são as obras de arte, existências misteriosas , cuja vida perdura ao lado da nossa, que passa.
(...)
O senhor me pergunta se os seus versos são bons. Pergunta isso a mim. Já perguntou a mesma coisa a outras pessoas antes. Envia os seus versos para revistas. Faz comparações entre eles e outros poemas e se inquieta quando um ou outro redator recusa suas tentativas de publicação. Agora (como me deu licença de aconselhá-lo) lhe peço para desistir de tudo isso. O senhor olha para fora, e é isso sobretudo que não deveria fazer agora. Ninguém pode aconselhá-lo e ajudá-lo, ninguém. Há apenas uma meio. Volte-se para si mesmo.
(...)
E se, desse ato de se voltar para dentro de si, desse aprofundamento em seu próprio mundo, resultarem versos, o senhor não pensará em perguntar a alguém se são bons versos. Também não tentará despertar o interesse de revistas por tais trabalhos, pois verá neles seu querido patrimônio natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando surge de uma necessidade. É no modo como ela se origina que se encontra o seu valor, não há nenhum outro critério."
17 março 2010
MAIS DICAS DO TOSCANA
Como vocês podem ver, o livro do David Toscana "O Último Leitor" é uma fonte riquíssima de dicas literárias, hoje vou postar mais um pouquinho, mas quem puder ler o livro na íntegra eu recomendo muito que o faça.
Pg 89, Lucio revoltado: "A mulher se aproxima de Lucio. Você não parece muito contente. Ele senta no chão e esfrega as mãos na areia. Todos buscam o final feliz, o rosto sorridente, romper com o destino natural, evitar a tragédia; perseguem coisas banais e insossas, leves e afeminadas: recusam-se a fazer literatura."
pg 101, conhecendo um bom romance: "Lucio decide ler o último parágrafo porque sabe que um bom final é sinal de um bom romance. Com os começos não acontece a mesma coisa."
pg 105, pleonasmos: "... para que você diz pequenas gotículas se a gotícula já é pequena sem o adjetivo?"
pg 109, sobre analogias (e sobrou até pra Bíblia, hehehe): "Em seguida o anjo me mostrou um rio de água de vida, claro como cristal, Claro como cristal? questiona Lucio, não conheço analogia mais medíocre, talvez a de alguns narradores nórdicos que falam de rostos brancos como a neve sem pensar no povo do deserto que jamais viu nevar. (...) Em que pese receio pelas analogias, Lucio quase nunca condena um livro ao inferno por mais ordinários que sejam, nem mesmo quando, em vez de precisar, desorientam o leitor: sentiu-se como se o mundo desabasse sobre sua cabeça, como o último homem da terra, idéias incabíveis para Lucio, palavras vazias mas toleráveis".
pg 110, "só entregava o romance imediatamente para as baratas, sem se importar com o quanto estivesse lhe parecendo atraente, quando o autor recorria ao cinema para se fazer entender. Duas semanas atrás condenou um romance por esse motivo: Ao pegá-la pela mão, James sorriu como Peter O'Donohue em O Vale das Gaivotas, que Mary Anne tinha visto pelo menos dez vezes na enorme tela do cinema da rua oito. E como vou imaginar esse sorriso?, exclamou Lucio, que há anos não entrava numa sala de cinema. (...) Despreza o cinema, mas sua aversão por esses autores se baseia em outra coisa. Não merecem ser chamados de escritores, pensa, se em vez de se darem ao trabalho de descrever um sorriso, um penteado, um olhar, uma atitude, preferem me mandar ver um filme".
Espero que as dicas tenham sido tão úteis como foram para mim!
Abraços!
Pg 89, Lucio revoltado: "A mulher se aproxima de Lucio. Você não parece muito contente. Ele senta no chão e esfrega as mãos na areia. Todos buscam o final feliz, o rosto sorridente, romper com o destino natural, evitar a tragédia; perseguem coisas banais e insossas, leves e afeminadas: recusam-se a fazer literatura."
pg 101, conhecendo um bom romance: "Lucio decide ler o último parágrafo porque sabe que um bom final é sinal de um bom romance. Com os começos não acontece a mesma coisa."
pg 105, pleonasmos: "... para que você diz pequenas gotículas se a gotícula já é pequena sem o adjetivo?"
pg 109, sobre analogias (e sobrou até pra Bíblia, hehehe): "Em seguida o anjo me mostrou um rio de água de vida, claro como cristal, Claro como cristal? questiona Lucio, não conheço analogia mais medíocre, talvez a de alguns narradores nórdicos que falam de rostos brancos como a neve sem pensar no povo do deserto que jamais viu nevar. (...) Em que pese receio pelas analogias, Lucio quase nunca condena um livro ao inferno por mais ordinários que sejam, nem mesmo quando, em vez de precisar, desorientam o leitor: sentiu-se como se o mundo desabasse sobre sua cabeça, como o último homem da terra, idéias incabíveis para Lucio, palavras vazias mas toleráveis".
pg 110, "só entregava o romance imediatamente para as baratas, sem se importar com o quanto estivesse lhe parecendo atraente, quando o autor recorria ao cinema para se fazer entender. Duas semanas atrás condenou um romance por esse motivo: Ao pegá-la pela mão, James sorriu como Peter O'Donohue em O Vale das Gaivotas, que Mary Anne tinha visto pelo menos dez vezes na enorme tela do cinema da rua oito. E como vou imaginar esse sorriso?, exclamou Lucio, que há anos não entrava numa sala de cinema. (...) Despreza o cinema, mas sua aversão por esses autores se baseia em outra coisa. Não merecem ser chamados de escritores, pensa, se em vez de se darem ao trabalho de descrever um sorriso, um penteado, um olhar, uma atitude, preferem me mandar ver um filme".
Espero que as dicas tenham sido tão úteis como foram para mim!
Abraços!
15 março 2010
MAIS DICAS DO "ÚLTIMO LEITOR"
Como eu já disse no post anterior, o livro "O Último Leitor" de David Toscana traz várias dicas sobre o que é bom ou não nos livros. Já vimos alguns exemplos, hoje vamos ver mais alguns:
Na pg 41 ele critica o excesso de adjetivos: "Santín mata o menino com uma facada; fala da cara de horror do menino, dos seus olhos abertos como pratos; narra as cenas de violência como os escritores costumam fazer: mencionam o sangue e o horror, mas não se notam nem uma coisa nem outra, por isso incham suas descrições com adjetivos. Lucio levanta a voz; fala como se estivesse diante de uma multidão. Onde os escritores aprendem a matar e morrer? No cinema, onde ninguém morre como a gente morre?"
Na pg 50 o ultimo leitor critica o "apelo ao consumismo": "Além disso, sente-se à vontade com os autores mortos porque descrevem os objetos sem apelar para o consumismo do leitor. A frase Antes de sair, Robert colocou um Giorgio Belli, o preto, o preferido de Emily foi suficiente para que Lucio descartasse "Espelhos de Vida", sem esperar para verificar se Robert tinha posto um paletó ou um chapéu. Acha que um romance se suja menos quando o leitor come em cima dele do que quando o autor menciona a marca da calça de um personagem, ou do seu perfume, ou dos óculos ou gravata ou do vinho francês que bebe em tal ou qual restaurante; os romances ficam manchados com a simples menção de um cartão de crédito, de um automóvel ou da televisão."
Nas pgs 68 e 69 mais algumas colocações: "Do que você está falando?, perguntou Remigio. Lucio olha para ele com desagrado. Destesta este do que você está falando?, um recurso desgastado de alguns autores para criar um diálogo no qual seria melhor respeitar o silêncio, deixar as coisas subentendidas. Não sei do que você está falando, diz Perkins, e o inspetor Fitzpatrick precisa contar como descobriu o culpado, num inventário de rastros, pistas e contradições que não são para Perkins, mas para o leitor."
"Desde que Folsom morreu, o gringos deram para escrever melodramas sobre pais egoístasou viciados ou cheios de manias e filhos que sofrem as consequências. Toda uma geração de escritores dedicada a denegrir seus pais."
E, para descontrair um pouco e terminar as dicas de hoje, pg 87: "Eu acabo de me desfazer de "O outono em Madri", diz Lucio, estava na página sessenta e três; ficaram duzentas e oito sem ler. Eu não passei da vinte diz ela. Para que um tédio desse chegue a Icamole se requer a cumplicidade de autor, corretores, editores, impressores, livreiros e até de leitores; isso sem contar a parceira do autor, que lhe diz sim, meu amor, você escreve muito bem, sim. Delinquência organizada, diz ele."
Abraços e até mais!!!
Na pg 41 ele critica o excesso de adjetivos: "Santín mata o menino com uma facada; fala da cara de horror do menino, dos seus olhos abertos como pratos; narra as cenas de violência como os escritores costumam fazer: mencionam o sangue e o horror, mas não se notam nem uma coisa nem outra, por isso incham suas descrições com adjetivos. Lucio levanta a voz; fala como se estivesse diante de uma multidão. Onde os escritores aprendem a matar e morrer? No cinema, onde ninguém morre como a gente morre?"
Na pg 50 o ultimo leitor critica o "apelo ao consumismo": "Além disso, sente-se à vontade com os autores mortos porque descrevem os objetos sem apelar para o consumismo do leitor. A frase Antes de sair, Robert colocou um Giorgio Belli, o preto, o preferido de Emily foi suficiente para que Lucio descartasse "Espelhos de Vida", sem esperar para verificar se Robert tinha posto um paletó ou um chapéu. Acha que um romance se suja menos quando o leitor come em cima dele do que quando o autor menciona a marca da calça de um personagem, ou do seu perfume, ou dos óculos ou gravata ou do vinho francês que bebe em tal ou qual restaurante; os romances ficam manchados com a simples menção de um cartão de crédito, de um automóvel ou da televisão."
Nas pgs 68 e 69 mais algumas colocações: "Do que você está falando?, perguntou Remigio. Lucio olha para ele com desagrado. Destesta este do que você está falando?, um recurso desgastado de alguns autores para criar um diálogo no qual seria melhor respeitar o silêncio, deixar as coisas subentendidas. Não sei do que você está falando, diz Perkins, e o inspetor Fitzpatrick precisa contar como descobriu o culpado, num inventário de rastros, pistas e contradições que não são para Perkins, mas para o leitor."
"Desde que Folsom morreu, o gringos deram para escrever melodramas sobre pais egoístasou viciados ou cheios de manias e filhos que sofrem as consequências. Toda uma geração de escritores dedicada a denegrir seus pais."
E, para descontrair um pouco e terminar as dicas de hoje, pg 87: "Eu acabo de me desfazer de "O outono em Madri", diz Lucio, estava na página sessenta e três; ficaram duzentas e oito sem ler. Eu não passei da vinte diz ela. Para que um tédio desse chegue a Icamole se requer a cumplicidade de autor, corretores, editores, impressores, livreiros e até de leitores; isso sem contar a parceira do autor, que lhe diz sim, meu amor, você escreve muito bem, sim. Delinquência organizada, diz ele."
Abraços e até mais!!!
11 março 2010
DICAS EXTRAÍDAS DO LIVRO O ULTIMO LEITOR
Como eu já disse ontem, o livro "O Último Leitor" de David Toscana, nos traz muitas reflexões sobre a maneira de escrever um romance. Nele o persongagem principal, Lucio, dá dicas do que gosta e do que não gosta nos livros que leu.
Logo nas pgs 11 e 12 ele faz sua primeira crítica ao romance fictício entitulado: "As cores do Céu" de Brian MacAllister
(...) " Sabe o que o espera, traste dos infernos? O negro negou com a cabeça embora sua expressão de horror revelasse que sabia muito bem o que o esperava. Os dois o levaram à barreira e o fizeram ver com terror as àguas que Murdoch acabava de observar com prazer. O negro parou de lutar. Preferia acabar com tudo de uma vez por todas a continuar aguentando a humilhação de ser arrastado como um cachorro, desviando-se das fezes dos cavalos, ouvindo conversas de bêbados. Você quer dizer alguma coisa antes de enfrentar seu destino?, perguntou Murdoch. O negro disse que sim e, tentando fazer com que sua voz não tremesse, falou: Há um Deus que não diferecia as cores da pele, que ama igualmente negros e brancos... Lucio bufa e fecha abruptamente o livro. Duzentas páginas para que esse negro venha dar lição de moral feito uma freira."
em seguida faz mais algumas colocações sobre a superficialidade de algumas expressões como "horror":
(...) "Uma mulher passa com meio quilo de tortilhas, e Lucio fica com água na boca. Ela o cumprimenta com um sorriso sem palavras; ele responde que MacAllister é um incompetente, e agora em voz baixa, só para si, continua: Olhe que mencionar a expressão de horror do negro e não se aprofundar nisso... devia ter dito como tremiam seus lábios vermelhos e grossos e rachados com fios de baba, ou pelo menos como a lua brilhava no branco dos seus olhos. A palavra horror é uma ilusão do escritor, pretende criar uma tensão inexistente, porque é obvio que o negro não vai morrer, tudo é tão óbvio (...)
Na pg 14 Lucio dá mais algumas dicas sobre o uso de nomes estrangeiros nos livros:
"Abre um livro e começa a ler. Tomou cuidado para que fosse um romance recente, pois estes não se preocupam mais em escrever os detalhes de um prato (...) no dia anterior já tinha descartado um romance desses. O narrador se sentava à mesa e dizia: Sara escolheu uma explêndida garrafa de Château Certan-Marzelle 98 para acompanhar a salada périgourdine, a cocotte de porc à l'ananas e o brie de Coulommiers, e como sobre mesa mandou que fossem servidos crêpes aux moules preparados com um magnífico vin de paille. Essas linhas e a descrição que seguia sobre mais quitutes e garrafas e vocábulos em itálico não provocaram a menor reação no seu estômago. Para mim, com esses nomes estrangeiros, dá na mesma se estão falando de comida ou de peças de reposição para uma máquina; as garrafas poderiam ser de óleo e talvez cocotte fosse uma engrenagem. Censurou o romance na página trinta e nove."
Na página 19 continua:
"Para não parecer muito ansioso, Lucio abre de novo "O Outono em Madri" e passa, por uns segundos, os olhos pelas frases. Natália, minha Natália, eu lhe disse umas cem vezes que a cidade é uma vitrine na qual se exibem minhas tristezas, minha falta de você, minha incapacidade de perceber qualquer beleza que não venha do seu rosto. Para mim basta dizer uma vez só, diz Lucio e tira da gaveta o carimbo de censurado.
Por outro lado, na pg 24 ele elogia o final do livro "A morte de Babette" que termina com essa frase: "Sinetas, gritos e sinos; gritos dentro e gritos fora e mais sinos, pobre Babette, pobre de você, sinos e mais sinos, um país que acredita que é livre, uma menina que não acredita em nada. Uma história não pode terminar assim, protesta Remigio. Claro que pode, e não há dúvida sobre o final. Pierre Laffitte já diz isso no título, então evita repeti-lo na trama."
E também na pg 27 fala do livro "Os peixes da terra" no qual ele finalmente encontra algo que lhe é familiar, algo que condiz com sua realidade, (...) "não ficou seduzido pela trama sobra Fritz e Petra, um casal que visita vários lugares em busca de um local para viver (...), no entanto, quando estava prestes a abandonar a leitura, o casal chegou a um lugar que Lucio teve certeza que era Icamole." (cidade onde ele morava)
Para finalizar o post de hoje o comentário muito pertinente da pg 33, quando Lucio está falando do romance "A macieira": "E pensar que estive a ponto de censurar esse romance, diz Lucio, só se salvou porque o pênis do protagonista é curto, e isso me parece insólito; em geral os escritores querem se ver em seus personagens e falam em enormes membros e amantes perfeitos e ereções monstruosas."
Amanhã mais dicas com esse ótimo livro do David Toscana!
Abraços!
Logo nas pgs 11 e 12 ele faz sua primeira crítica ao romance fictício entitulado: "As cores do Céu" de Brian MacAllister
(...) " Sabe o que o espera, traste dos infernos? O negro negou com a cabeça embora sua expressão de horror revelasse que sabia muito bem o que o esperava. Os dois o levaram à barreira e o fizeram ver com terror as àguas que Murdoch acabava de observar com prazer. O negro parou de lutar. Preferia acabar com tudo de uma vez por todas a continuar aguentando a humilhação de ser arrastado como um cachorro, desviando-se das fezes dos cavalos, ouvindo conversas de bêbados. Você quer dizer alguma coisa antes de enfrentar seu destino?, perguntou Murdoch. O negro disse que sim e, tentando fazer com que sua voz não tremesse, falou: Há um Deus que não diferecia as cores da pele, que ama igualmente negros e brancos... Lucio bufa e fecha abruptamente o livro. Duzentas páginas para que esse negro venha dar lição de moral feito uma freira."
em seguida faz mais algumas colocações sobre a superficialidade de algumas expressões como "horror":
(...) "Uma mulher passa com meio quilo de tortilhas, e Lucio fica com água na boca. Ela o cumprimenta com um sorriso sem palavras; ele responde que MacAllister é um incompetente, e agora em voz baixa, só para si, continua: Olhe que mencionar a expressão de horror do negro e não se aprofundar nisso... devia ter dito como tremiam seus lábios vermelhos e grossos e rachados com fios de baba, ou pelo menos como a lua brilhava no branco dos seus olhos. A palavra horror é uma ilusão do escritor, pretende criar uma tensão inexistente, porque é obvio que o negro não vai morrer, tudo é tão óbvio (...)
Na pg 14 Lucio dá mais algumas dicas sobre o uso de nomes estrangeiros nos livros:
"Abre um livro e começa a ler. Tomou cuidado para que fosse um romance recente, pois estes não se preocupam mais em escrever os detalhes de um prato (...) no dia anterior já tinha descartado um romance desses. O narrador se sentava à mesa e dizia: Sara escolheu uma explêndida garrafa de Château Certan-Marzelle 98 para acompanhar a salada périgourdine, a cocotte de porc à l'ananas e o brie de Coulommiers, e como sobre mesa mandou que fossem servidos crêpes aux moules preparados com um magnífico vin de paille. Essas linhas e a descrição que seguia sobre mais quitutes e garrafas e vocábulos em itálico não provocaram a menor reação no seu estômago. Para mim, com esses nomes estrangeiros, dá na mesma se estão falando de comida ou de peças de reposição para uma máquina; as garrafas poderiam ser de óleo e talvez cocotte fosse uma engrenagem. Censurou o romance na página trinta e nove."
Na página 19 continua:
"Para não parecer muito ansioso, Lucio abre de novo "O Outono em Madri" e passa, por uns segundos, os olhos pelas frases. Natália, minha Natália, eu lhe disse umas cem vezes que a cidade é uma vitrine na qual se exibem minhas tristezas, minha falta de você, minha incapacidade de perceber qualquer beleza que não venha do seu rosto. Para mim basta dizer uma vez só, diz Lucio e tira da gaveta o carimbo de censurado.
Por outro lado, na pg 24 ele elogia o final do livro "A morte de Babette" que termina com essa frase: "Sinetas, gritos e sinos; gritos dentro e gritos fora e mais sinos, pobre Babette, pobre de você, sinos e mais sinos, um país que acredita que é livre, uma menina que não acredita em nada. Uma história não pode terminar assim, protesta Remigio. Claro que pode, e não há dúvida sobre o final. Pierre Laffitte já diz isso no título, então evita repeti-lo na trama."
E também na pg 27 fala do livro "Os peixes da terra" no qual ele finalmente encontra algo que lhe é familiar, algo que condiz com sua realidade, (...) "não ficou seduzido pela trama sobra Fritz e Petra, um casal que visita vários lugares em busca de um local para viver (...), no entanto, quando estava prestes a abandonar a leitura, o casal chegou a um lugar que Lucio teve certeza que era Icamole." (cidade onde ele morava)
Para finalizar o post de hoje o comentário muito pertinente da pg 33, quando Lucio está falando do romance "A macieira": "E pensar que estive a ponto de censurar esse romance, diz Lucio, só se salvou porque o pênis do protagonista é curto, e isso me parece insólito; em geral os escritores querem se ver em seus personagens e falam em enormes membros e amantes perfeitos e ereções monstruosas."
Amanhã mais dicas com esse ótimo livro do David Toscana!
Abraços!
10 março 2010
O ÚLTIMO LEITOR

Na Oficina de Narrativas Longas que estou fazendo com o Paulo Sandrini, estamos estudando o livro "O Último Leitor" de David Toscana.
O livro é ótimo tanto para quem quer apenas uma boa distração, como para quem deseja aprender um pouco mais sobre o ato da escrita, visto que o persongem principal do livro dá várias dicas de coisas boas e ruins nos livros que ele já leu. Para escritores iniciantes como eu, é muito interessante perceber as críticas que ele faz para não cometer esses mesmos erros!
Amanhã mais detalhes sobre esse livro! Aconselho a todos que leiam!
Abraços.
Assinar:
Postagens (Atom)