A Editora Selo Off Flip promoveu no ano de 2020 uma chamada para seleção de textos com temática livre para composição de Antologia nos gêneros conto, crônica e poesia. A Antologia, intitulada "Parem as Máquinas!" foi pensada em meio a pandemia mundial, quando a maioria da população precisou mudar seus hábitos de vida.
Os textos passaram por uma etapa de seleção, curadoria e coordenação editorial realizada por Ovídio Poli Júnior e Olga Yamashiro.
Segue um trecho da orelha do livro:
"Esta antologia nasceu em momento grave, no qual a humanidade se vê às portas de uma possível extinção devido às agressões cometidas contra si mesmo e contra todo o ecossistema terrestre, que mostra sinais de exaustão. Momento de crise, momento de resistir e abrir novos caminhos diante das adversidades. Numa época em que governantes tentam desqualificar a arte e menosprezar quem a cultiva.
Em resposta a esse cenário, depois de meses de trabalho publicamos uma amostra de nossa diversidade regional, com textos que dão lugar a diferentes tons e registros: o dramático e o trágico, o épico e o lírico, a crítica social e política, o humor e a satírica, a humanidade em perspectiva histórica e filosófica."
Participei com textos nos três gêneros e fui selecionada em todos. Nos livros da Antologia vocês podem ler meu poema "Feminicídio", meu conto "Era uma vez" e minha crônica "Ana".
O lançamento da Antologia acontecerá no próximo dia 30/09/2020 na página do Facebook do Selo Off Flip às 19:00 horas e contará com a participação dos autores.
Estou insuportável, confesso. Nem eu mesma me suporto ultimamente. Nada me agrada. Nem as coisas que costumavam me agradar.
Ando desanimada com o mundo. É tanta violência, corrupção, impunidade. Estamos indo a passos largos para nossa própria destruição e parece que ninguém vê. Se vê, está cansado demais de nadar contra a corrente. Ou é andorinha solitária, que não pode fazer verão.
Em meio a uma pandemia, o que prevalece é o egoísmo. O bem estar pessoal antes do bem estar coletivo. Dane-se você, vou fazer o que eu quiser. Isso é defender a liberdade? Pode haver esperança - não pra nós, já dizia Kafka.
As veias abertas da América Latina sangram como nunca. Mas não só elas. O mundo inteiro vem sendo dilacerado dia após dia.
Salva-me, como sempre, a arte. E um bom conselho do marido: “Você precisa de um abraço, leia o Galeno.”
Na mosca! Saiu um sorriso só de lembrar desse livro, que me aquece o coração.
Eduardo Galeano (1940-2015), foi um escritor uruguaio que conseguiu com uma precisão cirúrgica e uma beleza indescritível trazer em seus livros as memórias de um povo, torná-las vivas e eternas, como devem ser.
“Recordar: Do latim re-cordis, tornar a passar pelo coração.”
“A função da arte/1
Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar.
Viajaram para o Sul.
Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
- Me ajuda a olhar!”
(Trechos de: O Livro dos Abraços, de Eduardo Galeano)
Galeano, com sua arte, me trouxe um sopro de vida. Um oásis onde repousar a alma.
Em tempos de desesperança, não preciso de ilusões, muito menos do grito da desgraça. Tenho necessidade vital do silêncio da beleza.
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