04 outubro 2020
Lançamento do livro: Maternidades Plurais
17 setembro 2020
Ambrose Bierce - Dicionário do Diabo
O livro Dicionário do Diabo de Ambrose Bierce na Edição da Carambaia, 2018 tem tradução e apresentação de Rogerio W. Galindo. Bierce traz em seus verbetes críticas ácidas às instituições, culturas, categorias e também aos indivíduos. Galindo sintetizou o livro nessa frase: a misantropia em verso e prosa.
A primeira edição do livro data de 1881, com o título Vocabulário do Cínico. O livro reúne textos/verbetes que ele havia publicado em jornal e acumulado durante 25 anos na temática contra a soberba e a arrogância humana.
Alguns exemplos de verbetes:
Aborígenes: (aboriginies), s.2g.pl.
Pessoas de pequeno valor encontradas penando sobre o solo de um país recém-descoberto. Em breve elas deixam de penar; passam a fertilizar.
Desobediência (disobedience), s.f
O lado positivo da servidão.
Perda (loss), s.f
“Aqui jaz sir Huntington, voltou ao pó.
A perda que teve foi a nossa vitória,
Pois quando vivia, em toda a sua glória,
O que ele ganhava perdíamos nós”.
*Collis P Huntington (1821-1900), magnata das ferrovias.
Ps: Huntington estava vivíssimo quando esse verbete foi escrito.
Um excelente livro, que vale a pena ser lido!
Abaixo meu vídeo comentando esses e outros verbetes do livro:
06 setembro 2020
EDUARDO GALENO - O LIVRO DOS ABRAÇOS
“Um conto toca um ponto
de alguém que precisa urgentemente
de uma palavra materializada”
(Everton Marcos Grison)
Estou insuportável, confesso. Nem eu mesma me suporto ultimamente. Nada me agrada. Nem as coisas que costumavam me agradar.
Ando desanimada com o mundo. É tanta violência, corrupção, impunidade. Estamos indo a passos largos para nossa própria destruição e parece que ninguém vê. Se vê, está cansado demais de nadar contra a corrente. Ou é andorinha solitária, que não pode fazer verão.
Em meio a uma pandemia, o que prevalece é o egoísmo. O bem estar pessoal antes do bem estar coletivo. Dane-se você, vou fazer o que eu quiser. Isso é defender a liberdade? Pode haver esperança - não pra nós, já dizia Kafka.
As veias abertas da América Latina sangram como nunca. Mas não só elas. O mundo inteiro vem sendo dilacerado dia após dia.
Salva-me, como sempre, a arte. E um bom conselho do marido: “Você precisa de um abraço, leia o Galeno.”
Na mosca! Saiu um sorriso só de lembrar desse livro, que me aquece o coração.
Eduardo Galeano (1940-2015), foi um escritor uruguaio que conseguiu com uma precisão cirúrgica e uma beleza indescritível trazer em seus livros as memórias de um povo, torná-las vivas e eternas, como devem ser.
“Recordar: Do latim re-cordis, tornar a passar pelo coração.”
“A função da arte/1
Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar.
Viajaram para o Sul.
Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
- Me ajuda a olhar!”
(Trechos de: O Livro dos Abraços, de Eduardo Galeano)
Galeano, com sua arte, me trouxe um sopro de vida. Um oásis onde repousar a alma.
Em tempos de desesperança, não preciso de ilusões, muito menos do grito da desgraça. Tenho necessidade vital do silêncio da beleza.
Se quiser ver mais textos e comentários, assista o vídeo:
04 setembro 2020
Ilusão x Desilusão
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| Arte: Débora Bacchi |
Em tempos pandêmicos, a reflexão acaba se tornando mais constante, mesmo para alguém como eu, que não tem muita paciência. Vide as circunstâncias tumultuadas do mundo ao nosso redor, o melhor mesmo a fazer é tentar sossegar a mente e entender algumas coisas dentro da gente primeiro.
Foi então que me peguei a pensar em algumas palavras. Gosto de brincar com elas, sou escritora, palavras são meu instrumento de trabalho e minhas companheiras. Devido a algumas situações ocorridas nos últimos tempos, cheguei a palavra ilusão.
Para mim, ilusão tem um sentido ruim, significa que você não está percebendo as coisas da maneira como elas realmente são, ou seja, está se enganando. Sendo essa palavra negativa - ao meu ver, fui levada instintivamente a pensar num antônimo. Cheguei em desilusão, que literalmente acabou com minhas esperanças.
Se ilusão era engano, desilusão era decepção, desapontamento. Encontrei-me numa encruzilhada. Seriam as duas palavras ruins? Alguma delas poderia ser boa?
Um ilusão nos deixa felizes com uma mentira. Uma desilusão nos deixa tristes com a verdade. É melhor ser alegre que ser triste? Ou é possível alegrar-se pela tristeza causada pela desilusão?
A vida não precisa ser tão cartesiana a ponto de nos obrigar a uma única escolha. Gosto de ter minhas ilusões (ou não seria escritora, muito menos professora!) e gosto de perdê-las de vez em quando também, porque não quero ser feita de trouxa.
Sair do País das Maravilhas às vezes é necessário, mas ter um ranchinho dentro dele pra passar um tempo é espetacular!
21 agosto 2020
Razões para ler Flush de Virgínia Woolf como um escritor:
Flush: memórias de um cão é a biografia fictícia de um cão cocker spaniel de origem inglesa que mostra a história de amor dos poetas Robert Browning e Elizabeth Barret percebidos através do ponto de vista do animal de estimação de Elizabeth.
Algumas razões para você ler esse livro que parece (mas não é) um livro infantil:
1) Virgínia Woolf (Inglaterra, 1882 – 1941) foi uma das maiores escritoras de língua inglesa do século XX, além de crítica literária, ensaísta e editora com grande influência na literatura mundial, sendo considerada uma das figuras mais proeminentes do modernismo.
2) É um livro aclamado pela crítica e pelo público, muito bem escrito, porém leve e fácil de ler:
Muito já foi dito sobre as principais obras de Woolf, porém encontramos uma lacuna quando se trata de Flush: memórias de um Cão que talvez por ser o livro mais acessível da autora acaba sendo pouco estudado nos meios acadêmicos. Entretanto, apesar da fácil acessibilidade, Flush em momento algum é menor do que as outras obras da escritora, ao contrário, seu estilo leve, bem humorado e simples mostram o amadurecimento da autora e sua segurança em tratar de temas sérios como a crítica irônica feita à sociedade burguesa vitoriana e seus valores.
Lembrando: para escrever de maneira “fácil” é preciso ter pleno domínio da escrita. Esse livro consumiu cerca de dezoito meses de trabalho de Woolf, sendo, portanto, uma brincadeira bastante séria, pois, ao criar um livro de memórias de um cão, Virgínia explorou os recursos da narrativa de forma primorosa e levou o fenômeno da consciência para além dos limites do real.
3) Traz aspectos históricos sobre outros escritores, tem intertextualidade com outras obras:
Robert Browning (Inglaterra, 1812 – 1889) e Elizabeth Barrett (Inglaterra, 1806 – 1861) foram dois grandes poetas ingleses da época vitoriana. As Cartas de Robert Browning e Elizabeth Barrett Barrett (2005) reúnem em dois volumes as 573 correspondências trocadas pelos poetas entre os anos de 1845-1846.
A história de amor vivida por Robert e Elizabeth e retratada nas cartas possuem dois atrativos para o público: primeiro por sua beleza estética e literária e segundo por seu conteúdo biográfico. Seja como for, a obra é, sem dúvida alguma, a mais célebre correspondência de amor da língua inglesa.
Todo o romance é descrito nas cartas e também no livro Sonetos da Portuguesa (2011) cujos poemas foram escritos entre uma carta e outra e se entrelaçam com a correspondência narrando a história de amor entre os dois.
O conceito de intertextualidade proposto por Kristeva (1980) é de que qualquer texto é construído como um mosaico de citações e uma absorção e transformação de outro. Woolf utilizou-se daquilo que leu anteriormente para compor sua obra e isso foi representado tanto por meio de paráfrases como de citações diretas. Woolf explora o discurso de outro e utiliza-se da palavra ambivalente, tendo como característica também uma influência ativa (modificação) da palavra de outro em palavra do escritor.
4) Faz um retrato social e econômico da Inglaterra vitoriana: mostra de maneira sutil as diferenças culturais e sociais do período, fazendo uma crítica à sociedade burguesa vitoriana.
5) O estilo da escrita, aprofundando a consciência do protagonista e usando muito a cinestesia:
FLUSH - UMA BRINCADEIRA EXCEPCIONAL DE VIRGINIA WOOLF
20 agosto 2020
Resenha: A morte é um dia que vale a pena viver - Ana Claudia Quintana Arantes
A morte é um dia que vale a pena viver
E um excelente motivo para se buscar um novo olhar para a vida.
Ana Claudia Quintana Arantes - Médica formada pela USP, com residência em geriatria e gerontologia, sócia-fundadora da Associação Casa do Cuidar.
“Eu cuido das pessoas que morrem”
O livro é classificado como sobre morte, perdas, aspectos psicológicos, mas é um livro singelo, de fácil leitura e compreensão, não é cheio de termos técnicos, é bastante leve e poético.
São reflexões da autora que conta quem ela é, porque ela faz o que faz, cuidados paliativos, empatia, medo da morte, medo da vida, a contemplação da morte, etc.
Gostei dos excertos de texto ou música que iniciam os capítulos, deixou bem poético e reflexivo (Manoel de Barros, Clarice Linspector, Lenine).
O livro começa com a autora contando que sua avó tinha uma doença grave e recebia as visitas do médico em casa. Ela, enquanto criança, vendo aquele tratamento gentil do médico com sua avó decide ser médica, porém no 4º ano para a faculdade (em crise por ver o sofrimento das pessoas, sua morte sem um cuidado especial) ela larga os estudos para voltar só depois de 2 anos.
Ela não se conforma com o “não há nada o que fazer” e faz uma crítica ao dizer que os médicos aprendem sobre doenças, remédios, tratamentos, diágnóstico-solução, mas não aprendem sobre a morte e muito menos sobre a vida.
“Cuidamos de tantas pessoas e às vezes esquecemos que nós também precisamos de cuidados. Temos que lembrar que por trás do CRM tem um coração que também sofre por muitas vezes não saber lidar nem com a morte e nem com a vida, porque a faculdade só ensina sobre doença, vivemos na base do problema-diagnóstico-solução e isso nos deixa muito limitados em outras áreas”
A morte ainda é um tabu para muitos e neste livro Ana Claudia compartilha o aprendizado que tem com seu trabalho como médica e como ser humano que cuida de outros seres humanos.
“A morte é uma ponte para a vida” (p. 14)
Considerações sobre o tempo:
“É só pela consciência da morte que nos apressamos em construir esse ser que deveríamos ser”
“As pessoas acham bonito dizer que não teve tempo de comer, de dormir, de viver!”
Primeiro arrependimento das pessoas que tem consciência que em breve vão morrer:
“ Eu gostaria de ter priorizado as minhas escolhas em vez de ter feito escolhas para agradar os outros” (p. 129)
Outro arrependimento:
“Eu deveria ter feito de mim mesmo uma pessoa mais feliz”
“Ninguém pode nos fazer infelizes, apenas nós mesmos”
(São João Crisóstemo)
Gostei muito do livro, de suas reflexões tão importantes e pertinentes e da maneira como isso foi contado, com amor, verdade e poesia.
Abaixo o vídeo que fiz para o Canal Senhora Literatura falando do livro:



