14 agosto 2020

Feminicídio

     Para mim, enquanto mulher, falar de feminicídio é abrir uma ferida profunda no meu próprio coração. Sim, porque mesmo sem ter passado por isso, me sinto irmanada a todas as mulheres que tiveram suas vidas ceifadas pelo simples fato de ser mulher. Todas elas são minhas irmãs, minhas mães, minhas avós, minhas tias, minhas amigas de infância!

     Em homenagem a todas elas, esse meu poema acompanhado de uma belíssima arte da Débora Bacchi.



Feminicídio


Flores na cabeça

Adornam o rosto pálido

Ferido por um animal

Chamado Homem


(Francine Cruz)


11 agosto 2020

14 corpos de João e Maria - Um livro que não é para os fracos

     Publicado pela Kafka edições, 14 corpos de João e Maria é o primeiro livro do professor e escritor João Paulo Partala, nascido em Curitiba, mas atual morador de Colombo (região metropolitana). O livro faz parte da coleção geração PR10 (6 novos autores da literatura paranaense e brasileira). 
     Partala foi meu colega em diversas oficinas de criação literária promovidas pela Fundação Cultural de Curitiba no início da década de 2010 e de lá pra cá refinou ainda mais sua escrita, que já era excelente, construindo um livro de estreia impactante. 


     O livro fala de morte. E não há nenhum romantismo acerca disso. Partala nos traz a realidade nua e crua, aquela verdade cruel que muitas vezes viramos o rosto pra não enxergar. São 14 contos que versam sobre as mortes banalizadas e naturalizadas de Marias e Joãos que representam os indivíduos invisíveis na nossa sociedade, aqueles que só são lembrados em época de eleição, que vivem uma vida inteira de exclusão social e na morte prosseguem com a mesma invisibilidade que tiveram na vida. 

"Janjão olha. A fusão Iguaçu sobe depressa sem que haja resistência alguma. Um desses carros novos, financiados em sessenta vezes com altas taxas, para próximo à cabeceira da ponte onde está Janjão. 'Olha, filho... Quanta água! Parece que vai levar aquele barraco... Levou! Olha ali, ó... Um piazinho numa tábua, se fosse você surfava, né?' E ria. Ao perceber o homem ali parado, começou a falar mais baixo, entrou no carro e saiu devagar, ainda rindo do piazinho, que além de tudo vestia-se muito mal, com uma camiseta de vereador da eleição passada. Muito fora de moda." (Conto: Mar de Acrópole) 

     O livro é marcado por uma forte crítica social, retratando o cotidiano de sujeitos engolidos por um sistema capitalista que promove gigantescas desigualdades sociais, colocando um abismo mesmo entre aqueles que param com seu carro (financiado em 60 vezes) para mostrar, entre risos, a enchente levando os barracos ao filho e aqueles que perderam tudo, inclusive a vida, numa enchente. 
     A existência desses Joãos e Marias, que usam boné e camiseta do candidato a vereador não tem valor, a menos que seja época de eleição.


06 agosto 2020

Do outro lado do vídeo há um poema

BPP divulga série de vídeos em homenagem ao centenário do escritor Sidónio Muralha

A Biblioteca Pública do Paraná (BPP) é parceira da Fundação Sidónio Muralha no projeto Do Outro Lado do Vídeo Há um Poema, que comemora o centenário do escritor e poeta português. São 22 vídeos diários com poemas do autor, apresentados por artistas, pesquisadores e estudantes brasileiros e portugueses. O conteúdo está disponível nas redes sociais da Biblioteca e no canal do YouTube BPP Conta. Acesse aqui.

Muralha morreu em Curitiba, em 1982, depois de viver duas décadas no Brasil. Seu legado inclui 20 livros para o público adulto, entre prosa e poesia, e uma premiada produção infantil, com títulos como A Televisão da Bicharada (1962), Valéria e a Vida (1976) e Helena e a Cotovia (1976), entre outros. Em sua edição de maio, o jornal literário Cândido, editado pela Biblioteca Pública, publicou um resgate de sua trajetória, marcada principalmente pela preocupação e o compromisso com as crianças. Leia aqui.


Texto extraído do site: http://www.bpp.pr.gov.br/


Minha leitura do poema "Estrelinha"





04 agosto 2020

Livro: Educação Física na Terceira Idade

Atenção, atenção!
Dica de presente para os pais, avós, maridos… e quem mais se identificar com o tema!


O livro Educação Física na Terceira Idade: Teoria e Prática está com um descontão de 30% no site da Ícone Editora. Aproveite e adquira o seu antes que a oferta acabe!
O objetivo deste livro é dar subsídios teórico-práticos para a realização de programas de educação física para idosos, destacando seus benefícios e particularidades, além de auxiliar profissionais na estruturação de suas aulas com sugestões de atividades.

26 julho 2020

29º Letra de Mulher



Roda de conversa sobre autoria de mulheres com mediação do Coletivo Marianas. 
O 29° encontro acontece em ambiente virtual e a página do evento estará aberta, entre 18 e 21 horas, para compartilhamento de vídeos e postagens com leituras de textos (poesia e prosa) produzidos por mulheres. 
Entre 19 e 20 horas será aberta uma sala, via Google Meet, para participação ao vivo, que poderá ser acessada pelo link https://meet.google.com/dpy-ycmn-aro.

Envie seu vídeo e/ou participe da sala!

Confira como foi o evento:


20 julho 2020

DICAS PARA ESCRITORES: FUJA DESSES 3 VÍCIOS!


ATENÇÃO AOS VÍCIOS APONTADOS ABAIXO,
ATÉ MESMO AUTORES EXPERIENTES COMETEM ESSES ERROS,
QUE PODEM FAZER O LEITOR ABANDONAR O SEU LIVRO.


  1. EXCESSO DE ADVÉRBIOS: 


Evite o uso excessivo de advérbios, em especial os advérbios terminados em mente que, são em geral, os advérbios de modo: calmamente, tranquilamente, alegremente… Mas também podem ser de afirmação: certamente, realmente… de tempo: imediatamente, diariamente… de dúvida: provavelmente, possivelmente, eventualmente… de intensidade: excessivamente, intensamente, demasiadamente… 

Os advérbios são utilizados para caracterizar os verbos ou intensificar o sentido de adjetivos ou outros advérbios, eles ajudam o leitor a visualizar com mais clareza o que acontece na história, porém devem ser usados com moderação. O excesso desses complementos podem estragar a riqueza do conteúdo e tornar a leitura cansativa. 

Stephen King no seu livro “Sobre a Escrita” enfatizou várias vezes que "os advérbios não são seus amigos" e que  "a estrada para o inferno é pavimentada com advérbios".

Usando os advérbios em excesso, o escritor demonstra que tem medo de não conseguir passar sua mensagem e expressar com clareza. Vamos considerar a frase “Ele fechou a porta firmemente”.

Não é uma frase de todo ruim, mas será que o “firmemente” precisava mesmo estar ali? O “firmemente” está expressando o modo como a porta foi fechada, mas se o autor conseguir dentro da sua narrativa esclarecer o que está se passando naquela cena, o que veio antes desse fechar a porta, o contexto em que a frase está inserida, talvez dizer que a porta foi fechada firmemente se torne redundante ou desnecessário.


  1. ADJETIVAÇÃO FÁCIL: 

Evite inchar suas descrições com adjetivos. Um bom escritor deve criar as imagens, mostrar e não contar (o famoso show, don’t tell).

O ideal é encenar (colocar em cenas) e não falar explicitamente.

Ex: um personagem lindo e muito desejado pelas mulheres, fazer uma cena onde ele chega e todas as mulheres param para olhar e não falar de forma explícita que ele era “lindo e desejado”.

É de suma importância caracterizar as personagens através de seus atos e falas. Ex: um cara babaca, não basta falar que ele é babaca, tem que fazer ele agir e falar como um. 


  1. PANFLETARISMO OU LIÇÃO DE MORAL: 


LITERATURA NÃO É PARA CONVENCER OS OUTROS DOS SEUS ARGUMENTOS E IDEIAS PESSOAIS, LITERATURA É ARTE!

 

A função do texto literário é estética, poética, sua linguagem deve ser expressiva e subjetiva, é um texto conotativo, que usa o sentido figurado. Não é pra ser denotativo, utilitário, para convencer, informar ou explicar as coisas.  

TCHEKOV em seu livro “Sem trama, sem final” também diz que escrever não é passar sermão. Ao representar ladrões de cavalos, todo mundo sabe que roubar é um mal, a função não é julgá-los. (deixem isso para os jurados), a minha função é apenas mostrar como eles são.

No livro “O último leitor” de David Toscana, o personagem Lucio trabalha numa biblioteca e fica decidindo quais livros vão para a prateleira e quais vão para o lixo. Logo nas pgs 11 e 12 ele faz sua primeira crítica ao romance fictício intitulado: "As cores do Céu" de Brian MacAllister

 

(...) " Sabe o que o espera, traste dos infernos? O negro negou com a cabeça embora sua expressão de horror revelasse que sabia muito bem o que o esperava. Os dois o levaram à barreira e o fizeram ver com terror as águas que Murdoch acabava de observar com prazer. O negro parou de lutar. Preferia acabar com tudo de uma vez por todas a continuar aguentando a humilhação de ser arrastado como um cachorro, desviando-se das fezes dos cavalos, ouvindo conversas de bêbados. Você quer dizer alguma coisa antes de enfrentar seu destino?, perguntou Murdoch. O negro disse que sim e, tentando fazer com que sua voz não tremesse, falou: Há um Deus que não diferencia as cores da pele, que ama igualmente negros e brancos... Lucio bufa e fecha abruptamente o livro. Duzentas páginas para que esse negro venha dar lição de moral feito uma freira."

 

É imprescindível diferenciar o autor pessoa (aquele que organiza esteticamente a obra) do autor narrador (um sujeito social, com seus valores e sua realidade). Ter isso em mente nos ajuda a evitar a tendência a explicar demais a história e os personagens (um bom autor precisa confiar na inteligência do seu leitor!).

Por fim, lembrem-se: a arte é provocativa, é rebelde, é revolucionária e muitas vezes causa estranhamento, nos faz refletir!

 

LIVROS CITADOS:

 

Anton Tchekov - Sem trama, sem final

Stephen King - Sobre a escrita

David Toscana - O último leitor 


13 julho 2020

Hélio Leites - um artista das palavras



Hélio Leites é artista plástico, poeta, performer, contador de histórias, arte-educador e um sujeito muito simpático! Conheci o Hélio em 2016 numa fe
ira literária em Arapoti na qual participamos juntos (eu estava gravidíssima!) e também já tive o privilégio de visitar sua barraca na Feirinha do Largo da Ordem aos domingos. Ele sempre tem uma boa história para contar e nos encantar com suas artes.



TARJA BRANCA - O LIBRETO QUE FALTAVA (CRÔNICAS) é seu primeiro livro e foi publicado pela Editora Prosa Nova em 2017. O livro  faz parte da Coleção por um mundo menor (por uma estética do mínimo, porém grandes na essência). 


“Tarja Branca é o remédio do futuro.

No futuro o remédio não vai entrar pela boca,

vai entrar pela orelha, é a palavra vestida de histórias,

curando aqueles que não se acreditam doentes". 



Alguns temas tratados no livro são: a vida cotidiana, a natureza, a religiosidade simples, a velhice e a arte. O livro é dividido em quatro partes: 


- Sobre a arte e o ofício da escrita (introduz a filosofia da tarja branca)

- Lembranças e Memórias (aborda questões sociais como a castração de animais e a desigualdade social)

- Religiosidade, ética e vida (traz personagens da cena curitibana como a "Santa" Helena Kolody e Efigênia Rolim, a Rainha de Papel de Bala).

- Encantos da vida e natureza (muitas flores, passarinhos, frutas e coisas belas para encher nosso olhar de encantamento)


"Onzimo mandamento: suportai-vos uns aos outros"


O estilo de escrita é permeado pela simplicidade e sabedoria franciscana,  pela espiritualidade dos santos sempre em harmonia com a natureza. Assim como para Espinosa ou Alberto Caeiro, para Hélio, Deus está em tudo, nas flores, nos passarinhos, nos rios.
O autor também traz originalidade com a criação de neologismos (pazciência, deuslicadeuza, artesanartes, etc).
O humor é o toque de mestre que Hélio usa para lidar com questões complexas como o autoconhecimento e a aceitação da (dura) realidade de que precisamos ser os protagonistas de nossa própria história. 
Enfim, um livro delicado e profundo, que vale a pena ser experienciado com tranquilidade.

Vídeo completo com leitura de algumas crônicas do Hélio: